Favelas brasileiras conseguem driblar a desigualdade e criar novas oportunidades

23/5/23
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Publicado por 
Redação Start

Conheça histórias de quem tem buscado reinventar a realidade das periferias

Foto: Divulgação - naPorta
Foto: Divulgação - naPorta

A presença de periferias e favelas espalhadas por todo Brasil é uma realidade que se estende ao longo de décadas, tendo origem principalmente durante o período colonial, após a abolição da escravatura e a revolução industrial no país. Muitas pessoas que eram escravizadas ou trabalhavam no campo foram se deslocando para as áreas mais distantes da cidade, com o objetivo simples de ter uma moradia. A partir disso, foram se criando comunidades cada vez maiores de pessoas que viviam em grandes cidades.

A expansão dessas comunidades se intensificou entre os anos de 1940 e 1980, devido ao crescimento populacional nas áreas urbanas e grandes cidades. Atualmente, as favelas brasileiras são mundialmente conhecidas pelas ocupações habitacionais irregulares, desigualdade social, infraestrutura inadequada e, até mesmo, são alvo de preconceito. Mas, muitas vezes, as favelas e periferias brasileiras caminham na contramão do senso comum e se mostram como um lugar de oportunidades. 

Com a ascensão de artistas, esportistas, empresários e influenciadores que tiveram origem em periferias, as favelas tornaram-se ambientes propícios para a criação de novos negócios, fomentando o empreendedorismo, a diversidade e a valorização cultural. Uma pesquisa realizada pelo Data Favela, em parceria com o Instituto Locomotiva, mostra que as quase 7 mil favelas brasileiras movimentam mais de R$180 milhões por ano. 

Empreender na favela pode se tornar um negócio lucrativo, beneficiando além de empresários e empreendedores, fomentando a geração de emprego e renda, e dando acesso a oportunidades por parte dos moradores. Ao longo dos anos, o empreendedorismo notou uma necessidade de migrar para o ambiente digital, seguindo a tendência do consumo de produtos e serviços digitais. Entre os quase 17,1 milhões de habitantes das favelas, cerca de 90% das pessoas estão conectadas à internet e sentem dificuldades ao consumir virtualmente devido à falta de sinalização ou registros postais.

Pensando em solucionar esse problema, diversas empresas criaram alternativas para que todos tenham acesso a esses produtos e possam realizar as suas compras online sem a preocupação de que esses produtos cheguem ou não às suas casas. Esse é o caso da startup naPorta, logtech de impacto que atua como uma extensão logística dos varejistas. Por meio do modelo LaaS, a startup oferece uma diversidade de soluções, com Last Mile a Middle Mile, operação interestadual, crossdocking, logística reversa, entrega agendada, entre outras funcionalidades.

O naPorta tem micro bases espalhadas ao redor de comunidades, atuando como hubs de processamento logístico. As bases são operadas por líderes de operações e entregadores que são moradores das próprias comunidades, que são responsáveis por levar os produtos até os consumidores finais. O negócio surgiu quando os sócios, Sanderson Pajeu e Leonardo Medeiros, passaram a observar o mercado além da vivência. Sanderson cresceu em uma região periférica no Itaim Paulista e sentia na pele as dificuldades com relação aos serviços de entrega. Já Leonardo era responsável por operações e vendas da empresa Ambev e atuava em favelas e comunidades.

Ambos observaram que, atualmente, as comunidades movimentam cerca de 180 bilhões de reais por ano. Outro dado é de que cerca de 37 milhões de pessoas sofrem com esse problema de não receberem suas encomendas e 70% dos moradores de comunidades já deixaram de comprar por conta dessa realidade. Para solucionar esse problema, Katrine Scomparin, CXMO e co-fundadora do naPorta, conta que a startup atua por meio de uma solução tecnológica que otimiza esse processo. A startup trabalha por meio de um serviço especializado que, além de facilitar os serviços de entrega dentro das comunidades, gera novos empregos para os moradores de cada região.

Foto: Divulgação - naPorta
“Eles sabem onde fica cada beco, viela e rua. Além disso, por sermos acelerados e investidos pelo Google, estamos implementando uma frente de “CEP Digital”, que além de ajudar a colocar as favelas no mapa do e-commerce também será responsável por melhorar a eficiência de rota. Os benefícios são inúmeros. A começar com o aumento de faturamento e capilaridade das empresas, uma vez que como falei, 70% dos moradores de comunidades deixam de comprar por não receberem”, comenta Katrine.

Katrine explica que há benefícios muito positivos para as marcas que conseguem chegar e entregar para novos clientes e usuários, visto que cerca de 56% dos moradores de comunidades do Rio de Janeiro afirmam se conectarem com marcas que oferecem esses serviços. Além dos serviços de entrega, a startup também busca promover frentes ESG atrelado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável - ODS, sendo eles: objetivo número 1, que busca a Erradicação da pobreza; objetivo número 8, que promove um trabalho decente e crescimento econômico; e número 9, que busca alinhar a indústria, a inovação e uma infraestrutura adequada.

Katrine define também que o naPorta promove três pontos de impacto para as comunidades.

“Impacto Econômico: Já alugamos seis pontos de apoio em comunidades, já injetamos cerca de 300 mil reais nesses locais (entre pagamento de entregadores e agências locais). E já investimos cerca de meio milhão na nossa solução. Impacto Social: Hoje temos quatro líderes de comunidade em desenvolvimento, já geramos emprego e renda para mais de 100 pessoas dessas localidades e temos um planejamento de gerar cerca de 40 novos empregos ainda neste semestre. Impacto Ambiental: 40% das nossas entregas são realizadas por bikes, além de investirmos em veículos elétricos, estamos também desenvolvendo uma frente de crédito de carbono para reverter em renda adicional para os entregadores”, finaliza Katrine.

Um novo olhar para a periferia

Há quem também lute pela expansão das favelas mostrando uma realidade diferente do que é exibido tradicionalmente na mídia. O influenciador e tiktoker Bruno Thierry, mais conhecido nas redes sociais como Rock Cria, passou a fazer sucesso nas redes sociais mostrando coisas da rotina dentro da maior comunidade do Brasil, a favela da Rocinha. Com pais separados, o influenciador passou parte da infância morando com a mãe na Paraíba, mas depois decidiu se mudar para o Rio de Janeiro com o pai, que morava na Rocinha com a família.

A ideia de começar a gravar vídeos mostrando a realidade empreendedora da comunidade surgiu quando Rock foi visitar a cidade da família no nordeste e viu que os serviços de transporte público acabavam à meia noite. Ele acabou comparando essa experiência com a rotina na comunidade onde vive, na qual existem uma série de serviços que duram 24 horas por dia. Outro acontecimento que o fez despertar o interesse em gravar seus vídeos foi quando as pessoas o questionavam sobre morar na favela, perguntando se era realmente seguro e reproduzindo conceitos passados pela mídia, resumindo as comunidades à violência e criminalidade.

A vida de Rock não difere muito da vida de boa parte da população brasileira.

“Antes da internet eu trabalhava como vendedor em uma loja e nas horas vagas eu dava aula de muay thai, pra poder fazer um dinheiro extra. Hoje eu consigo viver da internet, da monetização das minhas plataformas e das publicidades que eu faço. Eu cheguei na favela e começou minha história. Com 18 anos eu fui morar sozinho em um barraco de madeira na frente da casa do meu pai, foi quando começou o perrengue mais brabo, mas tudo faz parte do processo. Até então eu não mostrava muito a Rocinha”, conta Rock.
Foto: @rockycria

O influenciador compartilha que, antes de ir parar na Rocinha, vivia uma vida tranquila com a mãe no nordeste e que na Rocinha aprendeu a viver independente dos pais a partir das dificuldades, mesmo com pouca idade. Ele conta que não tinha noção das proporções que seus vídeos tomariam, e que tudo começou como uma coisa local, que acabou conquistando pessoas espalhadas por todo o Brasil e até mesmo fora do país, que querem conhecer a Rocinha por conta dos seus vídeos.

Entre os vídeos que fazem sucesso no TikTok do influenciador é possível conferir os que mostram a movimentação e como as coisas costumam funcionar na comunidade, com dicas de locomoção, dicas de alimentação e, até mesmo, a engenharia peculiar das casas. Como exemplo, podemos citar os vídeos “Coisas que tem na Rocinha e ninguém te conta”, “Tá com 8 reais na Rocinha e cheio de fome?” e “Quanto tempo eu gasto da minha casa na Rocinha até a praia de São Conrado?”.

Rock revela que a ideia dos seus vídeos é mostrar uma vida que vai além do que a mídia mostra.

“Se eu chegar pra te falar de um projeto irado que tem aqui, com a ideia de mudar vidas, onde eles ensinam economia para crianças, que lá na frente vai fazer maior diferença, ninguém vai querer saber, tá ligado? Mas se eu chegar falando que eu vou mostrar a boca, todo mundo vai querer ver. Essa é a ideia, que eu chamo eles com a negatividade e mostro a positividade. Quero dar um soco na costela do preconceito, poder informar e mostrar uma verdade, que aqui tem muita coisa, aqui tem comércio, é uma potência”, explica.

Ele afirma ainda que os casos de violência que acontecem dentro de uma comunidade tem uma repercussão muito maior em comparação a casos que acontecem em bairros mais favorecidos, isso mostra como funciona o preconceito. "O mais impressionante dentro das favelas é mostrar que a população de periferia busca se reinventar e nunca se render, estar sempre disposto a melhorar para sobreviver. Aqui não é um morango, mas tem muita coisa boa a ser mostrada”, completa.

Outro detalhe que ele conta sobre a Rocinha é a presença dos serviços gratuitos, que muitas vezes podem fazer a diferença para a população, como academias, cursos pré-vestibulares, bibliotecas, projetos sociais e a própria união dos moradores.

“A gente tá sempre se ajudando, às vezes eu passo em um comércio, eu gosto de mostrar uma coisa que tá começando, mostrar o processo, a minha ideia é dar força pras pessoas que não têm força. Isso me impressiona, e só acerta quem atira, quem tem vontade de vencer, vontade de mudar sem se iludir com as paradas erradas”, finaliza Rock.

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